
Quando vim para o Haiti, sabia que teria muitas experiências difíceis: crianças com problemas, pessoas vivendo em condições precárias, presenciar pessoas extremamente violentadas pela miséria e pela falta de oportunidades, conflitos armados, furacões… Pensei até que poderia ser agredido em algum momento, por algum motivo. Mas, nunca imaginei que fosse passar por um terremoto.
Não sei se forte ou fraco, só sei dizer que quase fui jogado no chão enquanto estava no banheiro. No primeiro momento passou pela minha cabeça que era um metrô (veja só). Mas, logo o chão começou a tremer, as coisas cairem a minha volta. Corri, mas dei de cara com a minha porta fechada… Numa fração de segundo lembrei do desastre em Angra e o desespero tomou conta. Comecei a empurrar a porta. Resolvi me acalmar e lembrei que embaixo do portal estaria em menos riscos e lembrei que as chaves estavam ao meu alcance, na mesa. Abri e sai.
Nas ruas, desespero. Pessoas corriam de um lado para o outro, outras eram amparadas; lágrimas, muitas. Desespero. As notícias chegavam, enquanto o coração ainda batia descompassado, enquanto tentávamos acreditar no que havia passado. Medo. Incerteza. Preocupação. Meus alunos! Desolação. Tantos sentimentos fortes juntos que a cabeça mal podia processar o que acabara de ocorrer.
As notícias chegavam: Desabou um hospital. Explodiu um posto de gasolina. Desabou igreja. Casas desabaram. Pessoas estão soterradas. .. Amigos chegavam em prantos, acabaram de perder pessoas da família, suas casas caíram. Nervosismo. O telefone não funciona. Corrida para a internet para avisar parentes e amigos que estamos bem. Preocupação com amigos que estavam na rua. Medo de entrar em casa, medo de ter de sair para a rua. Medo de um novo tremor.
Nas ruas, gritos, desespero. O que fazer? Rezo para que as crianças estejam todos bem.
Mais notícias. Parte do Palácio do Governo caiu. O Hotel Montana caiu. O telefone ainda não funciona. Mais tremores. Prédios inteiros desabaram. Pessoas sendo carregadas. Poeira. Muita Poeira. Pessoas gritando, chorando. Amigos haitianos chegando desolados. Perdas. Muitas perdas. Risco de Tsunami. Não é possível. Será que não chega o sofrimento deste povo? O telefone não funciona. Mais um tremor. Corre! Uma casa desmorona em frente. A esperança desmoronando.
Deixar passaportes e algumas peças de roupa a postos. Voltar ou não para casa? Muitas dúvidas. Será que isso realmente está acontecendo? O telefone não funciona. Trabalho intenso para informar as pessoas do acontecido. Tranquilizar mãe e minha família. Pensando em minha filha. A sua foto. A vida é tão frágil. Fotos pela internet. Escombros. Vidas e sonhos sob escombros. Pessoas nas ruas com medo. A noite chegando.
Os gritos das pessoas nas ruas cessam. Ouço um cântico. Elas cantam. Apesar de tudo ainda cantam. Pedem. Não sei dizer. Mas, cantam. Um cântico que soa como esperança, apesar da tristeza e da desolação que consegue ser mais densa que a poeira que tomou conta do ar. O telefone não funciona.
Esqueçam as fronteiras, as bandeiras, o idioma, as diferenças. Aqui seres humanos precisam de ajuda.
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