NUS

Tirei férias do calor inclemente neste ano. Eu me refugiei no frio europeu, em uma vila pitoresca nas montanhas, perto da Alemanha, fundada por volta de 1 200. Um lugar tão especial quanto Fernando de Noronha, só que na versão congelada. Como a vida é cheia de contradições, no fim do dia eu tinha por hábito me trancar na sauna para relaxar os nervos e aquecer o espírito.

Alemão toma sauna pelado. Mulher e homem, todos juntos no quartinho quente. Algo bastante pitoresco para católicos do Novo Mundo como eu e os meus. Eles ficam nus como se estivessem vestidos, sem malícia ou segundas intenções, é estranhíssimo. Libertador por um lado, mas extremamente frio e impessoal por outro. No Rio, uma mulher de topless em Ipanema corre o risco de levar areia na cara, acusada de indecência e vagabundagem, mas se estiver provida do bizarro modelo de biquíni asa-delta, cujo pano começa depois do fim do traseiro, ou mesmo do imaginário fio-dental, será considerada uma mulher decente. Vai explicar. Somos parentes da Europa mediterrânea, de portugueses, italianos e espanhóis que também ririam como crianças de ginásio se trancados em um recinto lotado de carnes fartas à mostra.

Na Dinamarca, certa feita, enquanto caminhava por um belo parque no verão do norte, dei de cara com um grupo de senhoras sexagenárias tomando sol como vieram ao mundo, sem que ninguém se chocasse com isso. Era uma cena de uma liberdade invejável. Os raios UV são uma bênção rara por lá, era bonito vê-las aproveitar o momento. Considero os europeus sisudos na maior parte dos casos, mas tenho apreço pela maneira desencanada com que se deixam envelhecer. As mulheres aceitam as rugas plácida e elegantemente, ao contrário das americanas do sul e do norte, que sofrem demais, engolfadas em Botox, Restylane, lipoaspirações e cirurgias plásticas. Tais procedimentos, na maioria das vezes, só pioram a inevitável decadência das células e estragam o curso natural das coisas.

Uma amiga minha costuma dizer que o americano malha para ser saudável e o brasileiro, para ficar bonito. Ambos veneram a eterna juventude. Meus amigos estrangeiros, especialmente os gays, são deslumbrados com a variedade de abdômens tanquinho entre o Arpoador e o Leblon. Entendo a necessidade de um habitante do norte de tirar a roupa sem que ninguém o chateie por isso. Os invernos rigorosos restringem a relação com o próprio corpo. São tantos casacos, meias, ceroulas, gorros, luvas e botas pesadas que às vezes não dá para saber se a pessoa engordou ou emagreceu, se está branca ou preta, feia ou bonita. É quase um caso de saúde pública ter o direito de exibir a própria pele. O Brasil foi fundado pelo fascínio dos marinheiros portugas pelas cunhãs de tangas mínimas. O apreço pelo corpo desnudo está na nossa raiz; não se comportar como adulto em uma sauna mista é parte do nosso caráter.

Deveria ser diferente. Afinal, somos todos silvícolas, recém-saídos do mato. Deveríamos considerar a nudez algo normal. Talvez, ao contrário da maturidade europeia, conquistada ao longo de anos e anos de guerras e revoluções, sejamos um povo adolescente, descobrindo agora as delícias do sexo. Quem sabe, com mais uns 1 500 anos de história, consigamos atingir a indiferença nórdica. É uma teoria... fraca. A Europa latina, apesar da idade, ainda se descontrola diante de um belo dorso nu.

Anos atrás, no Japão, fui com um amigo tomar um banho ao ar livre em uma fonte de águas termais vindas do Monte Fuji. Era algo bem popular, uma piscina natural no meio da floresta, dividida por um biombo de bambu. Mulheres de um lado e homens do outro, todos nus. Eu me deitei despreocupada, como se estivesse em Copacabana. Uma senhorinha gentil e sorridente me estendeu uma toalhinha pequena e, numa mímica confusa, me explicou que não pegava bem deixar os pelos pubianos à vista. Eu imediatamente cobri a vergonha me desculpando pelo comportamento selvagem. O japonês não gosta de pelos. Cada um com o seu cada qual.

Fernanda Torres


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