No início, era apenas uma fita cassete, que ninguém sabia de onde tinha vindo. Cópia da cópia da cópia da cópia de um cara que tinha arrumado com um amigo do filho da prima do vizinho.
Você só ouvia os palavrões mas dava para entender direito que a história tinha uma seqüência: um advogado telefonava para um local pensando que falava com a Telerj. Pessoas fingiam ser da Telerj. Depois, um cara atendia e dizia, “grandes merdas ser adêvogado” (com e no meio mesmo). Dias depois, a mesma turma ligava para o advogado – um certo Luiz Pareto – e perguntava se o conserto tinha sido adequado. E o pau quebrava de novo. Menos de cinco minutos de gravação, quase duas décadas de gargalhadas.
Aí veio a Internet e o “trote do adêvogado”, “trote da Telerj”, hoje “Trote do Pareto”, se popularizou de vez. A invasão de privacidade chegou ao extremo. Negozinho chegou ao ponto de ir na “Rua da Assembléia Número 10, mas amanhã não tem ninguém” só para fotografar a placa onde diz que o escritório do Pareto era ali (abaixo).
Descobriram que o Pareto morreu. Comunidades inteiras ficaram de luto. Milhões de homenagens por todo o país. Fizeram até remix do trote para tocar em festa. Arrumaram a foto do advogado no site da OAB (abaixo). A Paretomania chegou a tal ponto que, no Rio, existe o telefone 3378-1010 que, em tese, abriga uma versão gravada para o ouvinte curioso.

O advogado Luiz Henrique Pareto nunca teve idéia da popularidade dele. Se fosse candidato a deputado federal pelo Rio, ganhava fácil. Era só ter um bordão como “Rapaz simpático, agradável, e no entanto perde seu tempo com bobagem” ou “Parece que sim. Parece. A respeito de quê?”, pronto, milhares de eleitores vazios de esperança e de exemplos em quem se mirar iriam votar no Pareto.
Quem não conhece o trote, tem oportunidade de clicar no botão ao pé do post para entender a catarse. Mas aconselho a não ouvir perto de pessoas de idade ou de crianças, é palavrão a rodo, e palavrão da pesada. O advogado fica tão enraivecido dos moleques que infernizam sua vida que manda-os, er, “sugar” a região de excreção de alimentos já digeridos da progenitora deles. É uma explosão de raiva.
Em comunidades do Orkut, é comum que as pessoas discutam qual parte é a preferida do trote. Eu gosto muito da parte em que o algoz se identifica como Eliseu Drummond, da Telerj, “bom dia”. A formalidade cínica do cidadão é impagável.
Bom, mas, enfim, todo esse preâmbulo é para dizer que o acervo do advogado Pareto está indo a leilão, como mostra este inocente e discreto anúncio publicado num pé de página do jornal de segunda-feira.

No site do leilão não informa o que é do Pareto, mas creio que se o cidadão aparecer lá em Copacabana, onde eu presumo que seja o leiloeiro, seja possível obter informações.
Não consigo imaginar a cara de um sujeito dizendo: “Está vendo este conjunto de copos para whisky? Era do Pareto!”.
Terá o mesmo peso para nós de um Stradivarius para nossos avós. Corra! Hoje, 17/05/2008, sábado é o último dia de leilão.
O TROTE
A história é a seguinte: Início dos anos 90, na era do Plano Collor, da escuridão pré-internet, pré-celular, pré-câmeras digitais e pré-MP3. Operadores de Mercado Financeiro do Banco Bamerindus não tinham o que fazer pra matar o tempo em dias de vacas magras, Plano Collor, Zélia, poupanças confiscadas e de mercado totalmente parado. Toda ligação errada que por engano caía na mesa de operações proporcionava um alvoroço e quase sempre rendia um belo trote na mão dos sacanas corretores desocupados. E foi exatamente isso que aconteceu nesta filial carioca (sim, carioca... essas sacanagens só podem sair da cabeça de cariocas) da corretora do liquidado banco paranaense. Luiz Pareto, "adêvogado", ligou para a TELERJ a fim de reclamar de um defeito em sua linha telefônica. Para seu azar a ligação caiu nessa mesa de operações financeiras - que por questão de segurança tinha todas as suas linhas gravadas - e o cidadão se tornou protagonista do melhor trote que se tem registro.