
Um nova coleção começou a sair esta semana – a de “tesouros da ópera“. É muito barato: por R$ 15,90 você compra um livro com o texto da ópera (original e traduzido para o português) mais os CD’s (geralmente 2) com a gravação integral. O primeiro número, que acaba de sair, é o da Carmen de Bizet.
Eu comprei, coloquei para tocar, e descobri por que é barato. A gravação é ruim, muito ruim. É uma velharia de 1954.
Esse é um bom jeito de economizar nos direitos autorais. Eu imagino os executivos da Publifolha chegando no escritório de uma gravadora européia e perguntando: “Tem uma pechincha aí?”. Os caras respondem: “Tem uma bosta duma gravação ruim de 1954, que não conseguimos remasterizar direito. Estamos liqüidando.” Aí os caras da Folha compram, e saem vendendo milhões de cópias nas bancas. Foi mais ou menos o que eles já fizeram com a coleção de jazz, e não têm vergonha de fazer de novo.
O que acontece quando o incauto compra uma coleção como essa da Folha na banca?
Digamos que eu sou um cara que não conheço nada de ópera. Aí passo na banca, vejo a coleção da Folha e penso: “Deve ser importante. Vou comprar, para tentar aumentar minha cultura, entender um pouco de música clássica”. Aí eu nem leio as letras miúdas. Ponho o CD para tocar e fico pensando que ópera é horrível. Quem vai me explicar que a gravação é ruim, muito antiga, mal captada, mal re-masterizada, regente e orquestra errados, assassinando a música, tocando Bizet como se fosse marchinha de Strauss.
Além da primeira ópera da série ser uma gravação horrível, o que é culpa dos executivos que foram negociar a compra dos direitos na Europa, a coleção toda é um festival de ignorância e preguiça dos curadores, que escolheram as óperas que iam lançar.
Carmen de Bizet (1875), Fidelio de Beethoven (1805), Barbeiro de Rossini (1816), Traviata de Verdi (1853), Flauta Mágica de Mozart (1791), La Bohème de Puccini (1896)… já me cansei. As primeiras seis obras da coleção de 25 dão uma boa ideia da noção que a Folha tem de valor cultural: obras tão manjadas que já em 1928 Mário de Andrade criticava violentamente nos jornais sua programação na temporada de ópera da cidade de São Paulo. Que a elite cultural paulista não tenha se atualizado nada desde então não me surpreende muito.
As maiores ousadias que a coleção se permite são uma Pelleas e Melisande de Debussy (1902) e uma Salomé de Strauss – o Richard, não o Josef da marcha do Karajan (1905). Suspeito ainda que a melhor gravação da série deve ser a do Guarany de Carlos Gomes, com regência de John Neschling – essa eles não desencavaram uma gravação ruim como fizeram com a Carmen. Mas até chegar neste número 7, o sujeito já desistiu da coleção.
Faltam, escandalosamente, óperas do século XX. Não precisava ser nada muito chocante. Podia ser um Malazarte de Camargo Guarnieri, um Contratador de Diamantes de Francisco Mignone, uma Menina das nuvens de Villa-Lobos (que foi encenada em Belo Horizonte ano passado, com regência de Fabio Mecheti). É absolutamente indesculpável não ter um Wozzeck de Alban Berg. Podia ter um Peter Grimes de Britten, um Rake’s Progress de Stravinsky, um Telefone de Menotti. Não precisava nem ser uma Sarapalha de Harry Crowl, nem uma Erwartung de Schoenberg.
Para não dizer que é total e absolutamente irrelevante, a coleção tem o Guarani que eu já mencionei, com bom regente, difícil de achar em gravação comercial. O Debussy e o Strauss, para não dizer que a música acabou antes de 1900. E três tesouros desenterrados do período pré-clássico pela musicologia: Orfeo de Monteverdi (1607) – que deve ser considerada a primeira ópera que deu certo – Tito Manlio de Vivaldi e Rinaldo de Haendel.
No mais, a Folha ainda está longe de saber como se faz uma coleção de música.
Fonte: Amalgama
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